O Cubículo Constantemente Mutável

Hoje, pra compensar os tantos dias sem postagens, vou postar uma master-história. A maior que eu já postei. E a menos minha. Pois é… vou postar, mas a história não é nem sequer criação minha. Créditos vão para o meu grande amigo TJ (pra quem interessa, sabem de quem estou falando).

Eis uma história bizarra, viajada ao extremo, completamente paranóica. Psiquiatra não-incluso.

“O cubículo constantemente mutável

 

            Não sabia exatamente onde me encontrava. Foram ovos o que comi no café da manhã? Só o que consigo lembrar é que me deparei dentro de uma sala de aula… E eu já não tinha mais idade para estar lá.

            A escola sempre fora importante para minha vida. Afinal, lá é onde passamos a maior parte dela e é onde aprendemos a criar vínculos de amizade, a roubar o lanche dos outros ou a se esconder quando o lanche em questão é seu. Mas independente de tudo isso, eu me encontrava em uma.

            Estava cercado de pessoas desconhecidas e de todas as idades: desde criancinhas até senhores. Parecia estar havendo uma palestra, mas eu nem estava prestando atenção. Trabalhava em algo mais importante no momento: meu notebook.

            Ah, meu notebook. Sorte a minha ter conseguido comprar um! E era tudo o que eu precisava: com os poderes de teletransporte da internet, eu poderia estar em qualquer lugar a qualquer hora (enquanto meu aparelho tivesse bateria, é claro). Uma tecla aqui e, em uma fração de segundo, alguém do outro lado do mundo recebe a minha mensagem.

            Eu sabia que não estava lá à toa. Alguém tinha me chamado. Quem??? Isso era algo de que eu não conseguia me lembrar…

            Agora eu conseguia descrever detalhadamente a sala: esta era ampla, bem iluminada, com várias carteiras de madeira à moda antiga. Suas paredes eram brancas e frias, o que contrastava com a falta de ventilação do local. Por sorte, devo ter pressentido esse incômodo quando escolhi a roupa esta manhã, pois trajava uma simples camisa de algodão verde e uma bermuda de tactel azul-escura. Também usava meus tênis de corrida… por onde devo ter passado antes de vir para cá?

            Meus pensamentos são interrompidos por uma janelinha no meu notebook avisando que alguém havia se conectado no MSN. “Louize Gn.”, me apresentava a placa enquanto tentava me lembrar desse nome.

            “Louize… louize…”

            “Oh, mas é claro! Louize!”

            Lembrei-me: Louize era uma correspondente francesa que tirava férias no Brasil. Apesar de se hospedar a pouco tempo da minha cidade, ainda não havíamos nos encontrado.

            Uma janela de conversação apareceu instantaneamente exibindo suas lindas letras de cor rosa:

            Hi.

            Ela não falava português e eu muito menos sabia dizer algo além de bonjour ou omelette-du-fromage em francês. Eu me interesso muito por línguas e sou um ótimo falante, mas em algumas sou uma verdadeira negação.

            Conforme meus dedos dançavam sobre o teclado, minhas letras se formavam e perguntavam como ela estava, recebendo uma rápida e animada mensagem de uma garota que acabara de fazer compras.

            Apesar de Louize parecer muito reservada, até que conversávamos bastante e mantínhamos uma boa relação. Às vezes ela arriscava-se a dizer algo em português e eu a ajudava a corrigir as frases quando necessário. Depois de dois meses no Brasil, ela já aprendera bastante da nossa língua. Pelo menos sabia falar mais do que “boa tarde” e “omelete de queijo”! Eu invejava sua facilidade.

            Continuamos conversando sobre o de sempre e o que ela estava achando do país. Eu me alegrava com suas boas impressões e me animei ao saber de seus planos – pelo jeito, passaria o ano trabalhando no Brasil.

            Seu trabalho? Sinto que era relacionado ao meu, mas não me recordo agora.

            De repente, ouvi gritos vindos da sala ao lado. Duas pessoas aparentemente se desentendiam e discutiam a altos tons de voz.

            Oh-oh… I think we’ll have problems.

            Sons de mesas sendo jogadas e arrebentadas contra paredes confirmaram minha hipótese: nós teríamos problemas.

            As pessoas que estavam na mesma sala que eu estavam preocupadíssimas! “O que aconteceu?” e “façam alguma coisa!” eram frases ouvidas constantemente.

            Enquanto eu tentava entender o que acontecia e traduzir para Louize, as pessoas tentavam sair da escola e ligar para conhecidos virem buscá-los.

 

Branco.

           

            É a melhor palavra para descrever o momento entre o rebuliço e a situação atual: branco.

            Olhara a sala de canto a canto e me deparei com a solidão e o nervosismo. O que teria acontecido?

            Na busca de companhia, voltei para o meu pseudo-teletransportador na esperança de me confortar sabendo que há alguém que desconhece as razões da situação menos do que eu.

            Não havia nenhuma janela aberta. Louize estava offline e eu não conseguia acessar meus históricos. Meus históricos… exatamente! Talvez examinando meus históricos, me lembrasse de como parara ali. Porém, parecia que alguém descobrira isso enquanto eu me mergulhava na mistura de todas as cores, pois todos os meus registros de conversação haviam sumido!

            O que fazer numa hora dessas?

            Ouvi passos no corredor. Mecanicamente agarrei meu laptop e me escondi debaixo da mesa onde o apoiava bem na hora em que vi pela janelinha da porta um homem indo à sala aula onde ocorrera a discussão.

            Era um homem robusto, alto, negro e parecia portar algo em suas mãos que não pude identificar. Ouvi a porta da sala 12 se abrindo lentamente. 12? Não me lembro de ter visto a numeração ou essa porta pelo lado de fora…

            PÁ!

            Subitamente ouço um tiro. Dei um pulo e bati a cabeça na mesa, mas rapidamente me ajeitei tentando fazer o mínimo de barulho possível.

            “Alguém vai morrer…”

            Grande coisa vozes me dizerem o que acabo de perceber! Pelo jeito alguém morreu!

            “Alguém vai morrer se…”

            Suava frio. Não entendia o que estava acontecendo e estava muito preocupado.

            “Se não nos disser onde está…”

            O quê? Quem? Está onde???

            “Guène…”

            E em um segundo um raio me atravessou como se lembrasse de tudo, mas o eu pude absorver foi somente “Alguém vai morrer se não nos disser onde Guène está”.

            Abri desesperadamente meu computador sem pensar duas vezes. Guène estava lá! Eu tinha certeza.

            Mandei mensagens aturdidas para Louize:

            Tiros…! Pessoas armadas discutiram, estão atirando. Chame a polícia, por favor!

            Só então me lembrei que minha amiga mal falava português! E aquela agonia fez com que eu me esquecesse de todas minhas aulas de inglês que tive na escola! Teria ela entendido o recado?

            Um pedido de webcam chegou. Eu aceitei e esperei confuso e apressado até a câmera conectar.

            Espero que nenhum de vocês tenha a desventura de ver a cena que eu vi. Uma mulher de cabelos ruivos encaracolados até os ombros pendia do teto de um quarto logo acima de uma grande cama com um lençol, antes verde, totalmente banhado em sangue.

            Não entendo como segurei meu grito de pavor. O corpo nu da mulher mostrava que fora brutalmente espancada e que sofrera muito até conseguir a paz eterna.

            Alguém forçava a fechadura da sala. Para quê? O que foi que eu fiz? Foi quando reparei que eu estava trancado ali. E pelo lado de dentro. Como?

            Aquela imagem nauseante se misturava com toda a minha infância enquanto eu só desejava sair dali.

            “Não há lugar como o lar!”

            Mas bater os calçados não adiantava.

            Então notei um corpo caído no chão do quarto do vídeo. Barba mal feita, olhar sonolento, roupa de tons azuis… Mas esse era eu!

            Tornei a olhar para o corpo pendurado… Era Guène! Louize Guène!

            Come back early. Stevie won’t be here.

            Eu era Stevie e Louize era minha mulher. Ela já estava no Brasil há mais de 5 anos… e esse negro era Thomas, seu colega de trabalho. Mas não estávamos mortos… e Thomas deu sua última avançada contra a porta, que cedeu partindo-se em mil pedaços.

            Ele vinha com tudo em minha direção. Todo aquele cenário vinha, numa mistura de cores, me engolindo com todas as forças.

            E eu acordei. Finalmente acordei. Olhei para os lados e Louize estava com uma cara indignada. Eu a abracei forte e cheirei seu doce perfume.

            Era estranho… no sonho eu tinha minhas lembranças relativas aos primeiros meses dela no Brasil… mas tinha limitações dos conhecimentos de alguém… Eu estava no lugar de outra pessoa!

            Olhei ao meu redor e fiquei pasmo: estávamos numa cama com um grande lençol verde e, bem à nossa frente, havia um computador com uma câmera apontando para nós.

            A qualquer momento… aquilo podia acontecer…

            Fiquei muito assombrado e consternado, mas não pensei duas vezes. Peguei minha espingarda e me dirigi à sala ao lado com todas as minhas forças. Abri a porta e atirei direto.

            Senti uma pontada muito forte na barriga. A cena que antes fora vista por mim estava se concretizando. Eu estava no mesmo quarto com a cama e a minha mulher…

            “Thomas, o que você fez?!”

            Thomas? Ora essa! Eu não era Thomas. Não existia Thomas algum… essa era uma conversa de Stevie para Stevie.

            Desci os degraus do hotel com a maior certeza de toda a minha vida. Sabia direto para onde ir.

            “Sala 30… sala 25… sala 20…”

            E eu me encontrava cada vez mais e mais perto da sala em que eu precisava ir: a sala 11.

            Corri, corri e corri… Parecia que eu nunca chegaria lá. Eu só conseguia pensar em dar um fim a essa incerteza. Eu precisava de sangue. Precisava puxar o gatilho.

            Sala 11.

            É agora.

            Abri e fui imerso numa sala totalmente branca, caindo sobre um chão de material fofo. Tentei me mover, mas estava preso.

            A porta se abriu e a enfermeira francesa entrou. E agora eu já sabia: não existia Louize, notebooks, webcams, Thomas nem nada disso. Só existia uma peça de vários personagens interpretados por um único ator num único palco: meu universo aprisionado num cubículo branco.

            “Está na hora do seu remédio, Guène.”

            E eu voltei para minha doce insanidade.”

2 Responses to “O Cubículo Constantemente Mutável”

  1. Azurara Says:

    omelette-du-fromage ??

    Dexter!!

    safadão!!

  2. Azurara Says:

    legal o texto!! meio sinistro!!

    desculpe a demora!! mas eh q eu li esse texto em várias etapas!! huashaushas

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